7 de março de 2026

A HISTÓRIA DO OVO NO COMÍCIO:DIFERENÇA ENTRE UM ESTADISTA E UM MEDÍOCRE

Há muitos anos, em Santa Luzia, aconteceu uma cena que hoje parece quase fantasia. Era época de campanha — aquele período em que a cidade ganha um cheiro particular de poeira e debate, e todo mundo se acha meio comentarista político. No meio de um comício, entre discursos inflamados e aplausos puxados, um ovo — desses que a gente jura que só existe em filme — cruzou o ar e quase acertou um candidato conhecido na cidade.

O que poderia ter se transformado em escândalo virou apenas uma história que o tempo tratou de transformar em anedota. O mais curioso veio depois: passado o calor da disputa e confirmada sua vitória nas urnas, o candidato chamou para compor sua equipe justamente a pessoa que havia jogado o ovo. Convidou-a para ser secretária de Educação. Sabia quem ela era, sabia o que tinha acontecido, mas decidiu que competência pesava mais do que ofensa.

Esse gesto singelo diz mais sobre grandeza política do que muitos discursos. Um estadista — essa figura quase mitológica em tempos tão rasos — é justamente aquele que consegue enxergar além do rancor. Governar, afinal, não é administrar aplausos, e sim fazer escolhas maduras, mesmo quando o ego pede revanche.

O problema é que, hoje, o que mais se vê é o contrário. As cidades se transformaram em tabuleiros de quem é “do grupo” e quem não é. Ao vencedor, tudo. Aos que ousaram discordar, nada. Montam-se governos como quem escolhe times de pelada: amigos de um lado, desafetos do outro, e o interesse público que lute para sobreviver no meio do campo.

São atitudes pequenas, próprias de quem confunde cargo com espelho. Governam apenas para os seus — e ainda acham isso normal. Dividem a cidade entre “os que votaram em mim” e “os que não merecem meu tempo”. É o triunfo do político medíocre, esse personagem que o Brasil insiste em cultivar como mato teimoso.

Enquanto isso, histórias como a do ex-prefeito de Santa Luzia, Carlos Calixto, que chamou para ser secretária de Educação, Marli Nascimento, a pessoa que jogara um ovo em direção ao palanque durante umcomício vão virando lenda. Talvez porque grandeza, assim como bom senso, seja artigo em falta. Mas é sempre bom lembrar: a diferença entre um estadista e um idiota é que o primeiro sabe que o poder passa. O segundo acha que é dono dele.

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João Bosco Nascimento