7 de março de 2026

OPINIÃO: O SOBREVOO DE HELICÓPTERO E A REALIDADE DA SAÚDE EM SANTA LUZIA

Em uma cidade onde a saúde pública dá sinais cada vez mais evidentes de falta de infraestrutura, a população convive diariamente com problemas que deveriam ser prioridade absoluta: escassez de medicamentos, déficit de profissionais e relatos preocupantes envolvendo mortes suspeitas em unidades de atendimento. Diante desse cenário, o mínimo que se espera da gestão pública é foco na solução dessas urgências.

No entanto, o que se vê, muitas vezes, é uma inversão de prioridades. Recentemente, o prefeito protagonizou um sobrevoo de helicóptero na área onde será construída uma nova policlínica. A ação foi registrada com imagens aéreas, edição caprichada e ampla divulgação nas redes sociais, em uma produção que mais se assemelha a uma peça publicitária do que a um ato administrativo, mesmo quando o local está a menos de cinco mnutos da sede da prefeitura.

Não há dúvida de que a construção de novos equipamentos de saúde é importante. Ampliar a rede de atendimento pode representar mais acesso para a população. O problema não está na obra em si, mas no contraste entre o espetáculo da divulgação e a realidade enfrentada por quem depende diariamente do sistema de saúde municipal.

Afinal, de que adianta anunciar novas estruturas quando muitas das já existentes enfrentam dificuldades para funcionar adequadamente? Um prédio novo, por si só, não resolve os problemas da saúde pública. Para que uma unidade funcione de verdade, são necessários profissionais suficientes, medicamentos disponíveis, equipamentos adequados e uma gestão eficiente e responsável.

Quando esses elementos faltam, o resultado é conhecido: unidades sobrecarregadas, pacientes aguardando atendimento por horas e trabalhadores da saúde tentando manter o serviço funcionando mesmo em condições adversas.

O sobrevoo de helicóptero, com toda a sua estética pensada para gerar engajamento nas redes sociais, levanta uma reflexão importante: a prioridade da gestão está na solução dos problemas ou na construção de narrativas que rendam visibilidade política?

A população, que enfrenta a realidade das filas, da falta de remédios e da incerteza sobre a qualidade do atendimento, tem todo o direito de fazer uma pergunta simples e direta: quando a nova policlínica for inaugurada, ela será administrada nas mesmas condições precárias que hoje afetam parte da rede de saúde da cidade?

Construir novos equipamentos é necessário. Mas garantir que eles funcionem de forma digna, eficiente e humana é ainda mais importante. Sem isso, qualquer obra corre o risco de se tornar apenas mais um símbolo bonito nas redes sociais — e pouco efetivo na vida real.

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João Bosco Nascimento