18 de março de 2026

OPINIÃO: EVENTO SOLENE, COMO ANIVERSÁRIO DA CIDADE, NÃO É REUNIÃO DE CONDOMÍNIO

Vivemos, de fato, uma época em que a linha entre o público e o informal foi praticamente apagada. A lógica das redes sociais invadiu espaços que antes eram marcados por símbolos claros de respeito e solenidade. Em nome da autenticidade e da proximidade, autoridades passaram a se apresentar como cidadãos comuns — o que, à primeira vista, pode parecer um avanço democrático. No entanto, essa transformação tem cobrado um preço alto: a perda do sentido institucional de momentos que deveriam ser tratados com seriedade.

Eventos oficiais, como aniversário de uma cidade do porte de Santa Luzia, não são apenas encontros sociais; eles carregam significado histórico, político e simbólico. Quando uma autoridade participa de uma cerimônia pública, não está ali apenas como indivíduo, mas como representante de uma função que exige postura, linguagem e até vestimenta adequadas. Ao abrir mão desses elementos, o que se transmite não é apenas descontração, mas, muitas vezes, descaso.

A banalização da formalidade cria uma espécie de nivelamento que empobrece a vida pública. Se tudo parece uma conversa casual, nada mais se destaca como importante. Um aniversário de cidade, que deveria reforçar identidade, memória e pertencimento, acaba reduzido a um evento qualquer, sem o peso que merece. A comparação com uma reunião de condomínio para discutir aumento de taxas não soa exagerada — ela revela justamente essa perda de referência.

É claro que protocolos rígidos, por si só, não garantem respeito ou eficiência. O excesso de formalismo pode afastar e até parecer artificial. No entanto, abolir completamente esses códigos é jogar fora ferramentas importantes de organização simbólica da sociedade. A forma também comunica — e, nesse caso, comunica desvalorização.

Portanto, não se trata de defender um retorno acrítico ao passado, mas de reconhecer que certas ocasiões pedem mais do que espontaneidade. Autoridades podem, sim, ser acessíveis sem abrir mão da dignidade do cargo que ocupam. Afinal, quando o espaço público perde seus rituais, perde também parte do seu significado.

Por: João Bosco Nascimento

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João Bosco Nascimento