DA SOBREVIVÊNCIA À POLÍTICA: LUCIANA QUER TRANSFORMAR DOR EM POLÍTICAS PÚBLICAS

A menina que um dia sofreu em silêncio decidiu transformar a própria dor em voz. E agora quer levar essa voz para Brasília.
Nascida em Belo Horizonte e moradora de Santa Luzia há 48 anos, Luciana Schettini conhece, na própria pele, as marcas da violência. Filha de uma família de dez irmãos, ela teve a infância interrompida por uma violência que carregou por anos: entre os 11 e os 13 anos, foi vítima de abuso sexual.
Era uma criança. E, como tantas outras vítimas, precisou conviver com o peso de uma violência que não escolheu, não provocou e não deveria ter conhecido.
No caminho para reconstruir a própria vida, encontrou acolhimento na Igreja Católica, por meio da Igreja Nossa Senhora da Paz, no bairro Cristina. Foi um dos espaços onde encontrou forças para seguir adiante e transformar sofrimento em resistência.
Mas a história de Luciana não parou na sobrevivência.
Ela trabalhou, empreendeu e recomeçou inúmeras vezes. Foi maquiadora, cabeleireira, empresária de shows e, ao longo dos anos, passou a se envolver cada vez mais com as questões sociais. A experiência de vida a aproximou de histórias de outras mulheres, crianças e famílias que, assim como ela, enfrentam situações de violência, abandono e falta de oportunidades.
Foi então que Luciana percebeu que sua luta precisava ganhar outra dimensão.
A política entrou em sua vida não como um projeto de poder, mas como uma possibilidade de transformar indignação em ação.
Ela quer fazer do mandato parlamentar uma ferramenta de enfrentamento à violência contra mulheres e crianças, defendendo políticas públicas que não se limitem a socorrer vítimas depois da tragédia, mas que atuem também na prevenção, na proteção, no acolhimento e na responsabilização dos agressores.
O feminicídio e o abuso sexual infantil estão entre as questões que mais a mobilizam. Para Luciana, números não podem ser tratados apenas como estatísticas. Por trás de cada caso existe uma vida destruída, uma família marcada e, muitas vezes, uma criança que terá de conviver durante toda a vida com as consequências de uma violência sofrida na infância.
É por isso que ela decidiu colocar seu nome na disputa por uma cadeira na Câmara dos Deputados.
A candidatura a deputada federal representa, para Luciana, a tentativa de levar para o centro das decisões nacionais uma voz que nasceu na periferia, cresceu enfrentando dificuldades e conhece de perto aquilo que muitas políticas públicas tentam combater apenas no papel.
Ela não fala sobre violência apenas porque estudou o problema. Fala porque sobreviveu a ela.
E talvez seja justamente essa a força que pretende levar para a política: a experiência de quem conhece o medo, mas decidiu não permanecer calada; de quem conheceu a dor, mas escolheu transformá-la em luta; de quem poderia ter sido apenas mais uma vítima, mas decidiu ser uma voz por outras vítimas.
Luciana faz questão de definir a si mesma sem esconder sua história ou suas origens:
“Sou uma mulher negra, periférica e sobrevivente de abuso sexual.”
Agora, quer transformar essas três palavras — negra, periférica e sobrevivente — em uma plataforma de luta por milhares de brasileiras que ainda vivem em silêncio.
Da menina que precisou sobreviver à mulher que decidiu lutar. Luciana Schettini quer fazer da política o instrumento para que outras crianças e mulheres não precisem passar pelo que ela passou.
Por João Bosco Nascimento
