A JUSTIÇA PODE SER CEGA. A SOCIEDADE BRASILEIRA, NÃO

Há cenas que dizem mais do que mil discursos. Ao acompanhar as explicações dadas diante das recentes controvérsias envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal, muitos brasileiros têm a sensação de assistir a uma reunião escolar: alunos chamados à diretoria, versões apresentadas e justificativas que, em vez de encerrar as dúvidas, parecem abrir novas perguntas.
As informações que vieram a público a partir de mensagens e conversas atribuídas a um banqueiro colocaram novamente sob os holofotes relações entre poder, dinheiro, viagens, contratos e interesses pessoais.
São episódios diferentes, com circunstâncias diferentes. Alguns envolvem alegações que ainda precisam ser devidamente comprovadas e contextualizadas. Outros dizem respeito a fatos ou documentos que já foram divulgados publicamente.
Mas existe uma pergunta que não pode ser ignorada: até onde vai a ética e onde começa o conflito de interesses?
Um teria viajado em avião particular. Outro teria sido relacionado a um encontro de natureza pessoal. Há ainda questionamentos sobre contratos milionários envolvendo escritório ligado a familiar de autoridade e sobre pedidos de ingressos para eventos destinados a familiares. Tudo isso precisa ser apurado.
E justamente por isso as explicações precisam ser claras. O cidadão brasileiro não pode ouvir apenas negativas. Precisa ouvir respostas capazes de esclarecer os fatos.
Porque ministros do Supremo não são pessoas comuns ocupando cargos comuns. São integrantes da mais alta Corte do país. Suas decisões afetam milhões de brasileiros e interferem diretamente nos rumos da República. Quanto maior a autoridade, maior deveria ser também a transparência.
Não estamos falando de condenar ninguém antes de uma investigação. Estamos falando de uma coisa muito mais simples: o direito da sociedade de desconfiar, perguntar e exigir esclarecimentos. E talvez seja esse o maior problema de tudo.
Quando uma instituição encarregada de fazer Justiça começa a ser vista pela população com desconfiança, não basta afirmar que a instituição é imparcial. É preciso demonstrar isso. A credibilidade da Justiça não se sustenta apenas pela toga. Sustenta-se pela coerência, pela transparência e pela igualdade dinate das regras.
O cidadão comum é cobrado por muito menos. Por isso, quando surgem dúvidas envolvendo aqueles que estão no topo do sistema de Justiça, a sociedade naturalmente pergunta: quem fiscaliza os fiscais? É uma pergunta incômoda.
Mas democracia também é isso: poder fazer perguntas incômodas sem ser tratado como inimigo das instituições. A Justiça precisa ser independente. Precisa ser respeitada. Precisa ser forte. Mas precisa, acima de tudo, merecer a confiança do povo. Porque a Justiça pode ser cega. O povo brasileiro, não.
Por João Bosco Nascimento
